por Gabriella Rodrigues - 30/07/09
Ela deitou a cabeça no travesseiro e pensou: “Eu culpada?” Não fazia sentido. Aliás não fazia o mínimo sentido. Ela sabia, bem dentro dela, que poderia ser tudo, menos a culpada de que os sentimentos que a uniam a ele tivessem se acabado. Foram longos anos de um vai não vai, de “te amo mas não sei o que eu quero pra mim”, de sentimentos incertos, de falsa segurança. Isso tudo cansa. E ela cansou.
Não era um cansaço físico, nem moral, era um cansaço emocional. Ela sempre fora uma pessoa extremamente passional, de entregar-se de corpo e alma a tudo que fazia. Com ele não foi diferente. Ela entregou-se de corpo, alma e principalmente coração àquela relação.
Ali deitada ela cantarolava: “...não vou dizer que foi ruim, também não foi tão bom assim...”. No início eram só flores, declarações ao pé do ouvido, juras de amor, pedidos inesperados e tudo mais que um romance digno de Hollywood poderia ter. Mas tudo muda com o tempo.
Mudanças. Exatamente elas que a fizeram mudar. Agora, ela quer o certo, cansou da emoção de viver da incerteza. Ela quer segurança, quer amor. Chega dessas coisas de não saber se amanhã ele ainda continuará a sentir o que sentia hoje! Todos mudam, mas poucos crescem. Ela verdadeiramente mudou e inegavelmente cresceu!
Ela repassa mentalmente tudo que a fez mudar e chega a conclusão de que não havia outro caminho senão aquele. Se bem, teria outro sim, o da submissão à ele. Mas se ela seguisse esse caminho não seria ela mesma. Hoje ela se sente mais forte, menos imatura e mais certa de si. Ela vira de lado na cama, abraça um travesseiro e tem a coragem de terminar a canção que antes cantarolava: “...Não imagine que te quero mal, apenas não te quero mais...”. É ela realmente mudou.
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Tempos Modernos
terça-feira, 1 de janeiro de 2008
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Intimidades
por Viviane Moraes - 10/07/09
O inverno chegou e com ele veio o mês de julho, que por sua vez, traz as férias escolares. Após completar um ano e meio, lembro-me dos oitos finais de semestre durante a faculdade de Publicidade. Final de junho e aquele desespero daqueles que tiveram alguns probleminhas ao longo do semestre letivo: “Ai, professor, poxa, me dá 0,5 vai...não te custa nada.”
No entanto, junto com o desespero vêm as glórias. Os elogios dos professores para com a turma, as observações dos alunos para com os professores. Mas qual seria a maior glória? As novas amizades! Eu sentia saudade dos interesses em comum se transformando em momentos de intimidades, troca de confidências entre as aulas de Teoria do Gerativismo, Ferninand de Saussure, Libras e Literatura.
Esqueci que foi numa faculdade que aprendi a me conhecer e a construir parcerias que duram até hoje. Foi numa faculdade que aprendi a ser mais crítica. Foi numa faculdade que aprendi a ser mais íntima. Íntima da publicidade e da propaganda, que me levaram a conhecer Saussure, que por sua vez me fez apaixonar-me por Lingüística, a qual me fez iniciar um novo ciclo.
Novo ciclo este que me fez encontrar pessoas com os mesmos interesses, como dito anteriormente. Os cafés no bar do Prédio 8, as rodas de chimarrão estudando para a prova de Lingüística, as críticas sobre a didática dos professores de Escrita Criativa (que eles não tenham acesso a esse texto...rs!) e até uma colega ‘hermana’ dando um ‘up’ no espanhol da galera.
Segundo o dicionário da língua portuguesa, Michaelis, intimidade é: “1 Qualidade de íntimo. 2 Amizade íntima, relações íntimas. 3 Familiaridade.” Dessa forma, posso dizer que intimidade é o que define o primeiro semestre de 2009. Intimidade vinda das novas relações dentro de um novo ambiente e familiaridade com um novo curso. Intimidade com a certeza de que optar por uma vocação, buscar um sonho que sempre esteve no meu coração e que neguei por um algum tempo. Mas há sempre tempo para novas descobertas, novos caminhos. Novos caminhos que poderão ser atalhos ou longas estradas frias e escuras. O jeito é se agarrar nas companhias mais íntimas que ajudarão a superar todos os desafios.
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À Beira do Caos
por Uriel Gonçalves - 06/07/09
Se existissem verdades irrefutáveis, a mair delas seria essa: o mundo está à beira do caos. Essa frase é um clichê afinal, praticamente todo mundo já escutou isso da boca de alguém. Mas a verdade é que o mundo sempre esteve à beira do caos.
O mundo estava à beira do caos há 2000 anos, ao ser dominado por romanos impiedosos; foi quando surgiu um revolucionário que os enfrentou, arrastando multidões.
O mundo estava à beira do caos quando o revolucionário pacífico foi crucificado;foi quando surgiram seus seguidores e estabeleceram uma igreja;
O mundo estava à beira do caos quando houve mais de uma igreja e elas passaram a guerrear;foi quando surgiu um sultão que ganhou a guerra.
O mundo estava à beira do caos quando a época desse sultão acabou, e seu povo começou a guerrear entre si;foi quando surgiu o presidente de uma grande nação capitalista para tentar apaziguar a guerra.
O mundo estava à beira do caos quando esse presidente traiu sua esposa e feriu os conceitos e costumes de seu povo;foi quando surgiu um outro presidente fiel e adepto da moral.
O mundo estava à beira do caos quando esse presidente vendeu a alma do seu povo em troca de petróleo;foi quando surgiu a revolta de algumas nações do terceiro mundo contra ele.
O mundo estava à beira do caos quando o povo de uma dessas nações entrou na miséria;foi quando surgiu um presidente indigena capaz de entender e lutar por seu povo.
O mundo estava à beira do caos quando esse presidente indigena tripudiou e virou as costas para o maior pais da sua região;foi quando surgiu um presidente sindicalista e popular desse grande país, que tratou de fazer…nada.
Sim, o mundo sempre esteve à beira do caos, mas nunca chegou lá, porque cada um luta com suas forças para que isso não aconteça.Dentre todos, há os que usam as armas, o poder e a sabedoria para o bem ou para o mal. É daí que surge o equilíbrio que se espera para que o mundo não entre em colapso.
Existem porém, aqueles que preferem não explorar as possibilidades que dispõem: os passivos. E quanto maiores as chances que um passivo tem de colaborar com os outros, maior a sua falha. E quanto maior a falha, mais perto o mundo estará do estado de caos e só assim o clichê se tornará realidade.
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Don’t let me be misunderstood
por Mariana Melleu - 30/06/09
A: Desculpa pelo atraso. Esse centro ainda acaba comigo, que calor! Quanta gente! E ainda...
B: Tudo bem?
A: Melhor que nunca. Tô tentando achar o cara do isopor pra comprar uma água.
B: Comigo também, tudo tranqüilo, caso queira saber.
A: Eu quero.
B: Mudei durante esse tempo, sabe. Como é que chamam mesmo?
A: O quê?
B: Quando as pessoas se transformam, crescem...
A: Amadurecimento?
B: É, isso, eu amadureci. Sabe, eu senti tua falta. Mas eu não te culpo.
A: Eu não me arrependo de nada.
B: Tu não merecia tão pouco de mim. Queria mesmo que tu me desculpasse.
A: Não tenho do que reclamar; afinal quem sumiu, oficialmente, fui eu e não tu. Embora eu acredite que isso fosse acontecer de qualquer jeito.
B: É ridículo querer ser amigo depois de tudo, eu sei. Mas a gente sempre se deu tão bem. Eu gosto muito de ti.
A: Sabe, as vezes eu lembro de umas conversas que a gente tinha... a gente ria de todo o mundo e falava tão mal de qualquer sentimento. A gente se divertia.
B: Quem diria... eu, agora, namorando...
A: E lembra de como tu conheceu ela? Que ironia, meu deus.
B: Tu tá bonita, sabia? Da última vez que te vi tava bem diferente.
A: Ah, na praia?
B: Tava engraçada, toda vermelha.
A: E o teu amigo? Faz tempo que não falo com ele.
B: Tá tranqüilo. Tava namorando também, mas já não tá mais.
A: Eu acho engraçado, sabe? Tanta coisa aconteceu nesses últimos tempos... eu pensava muito em ti as vezes.
B: A gente é diferente, eu continuo acreditando nisso.
A: Cadê o cara do isopor? Tô com sede.
B: A gente é feio. Talvez por isso a gente tenha sido tão feliz.
A: Só queria que tu deixasse de ser tão acomodado com as coisas. Eu pensava que era por causa da idade, mas não. Tu já não tinha mais dezessete anos. Que dirá agora.
B: Eu...
A: Queria que tu te desse conta dessa merda da tua capacidade, seja pro que socialmente é condenado, e investisse nisso, não só fingisse. Sempre te falei que teu problema era não ir atrás de algo importante pra ti. E eu vi tudo passar, eu vi tu deixar tudo passar. Daí, enchi o saco.
B: Agora tô estudando. Faço até trabalho.
A: Eu senti tua falta...
B: Lembra daquele teste vocacional que a gente fez na internet? A racional e o artista.
A: Verdade, eu lembro disso. Que patético.
B: E lembra da primeira vez que a gente se beijou? Foi aqui no centro até.
A: Hm, lembro. Que falta de classe da minha parte. Cair naquela tua lábia besta de cutucar meu ombro...
B: Funcionou.
A: Fato.
B: Sempre gostei de ficar contigo, conversar contigo; até teus trocadilhos infames que as vezes nem tu entendia...
A: Os teus não eram lá essas coisas também.
B: Que merda.
A: Tem uma coisa, sim.
B: Ãhn?
A: Tem uma coisa que eu me arrependo, sim. Queria ter, sei lá, insistido mais. Eu queria ta lá vendo tu mudar, queria tá lá pra, provavelmente, fazer alguma piada sem graça.
B: E aquela noite que, depois de tudo, a gente ficou a madrugada inteira contando piadas de ponto?
A: Bando de bêbados. Acho que vou desistir do cara do isopor. Que calor. Tu não tá com sede, não?
B: Tô bem.
A: Eu lembro de quando a gente se conheceu. Me mandou à merda logo de cara.
B: Tu respondeu...
A: Depois ficou reclamando que a caixa do Tolstói tava muito cara na livraria. Eu devo ter pensado “que intelectual do caralho” ou algo parecido.
B: Eu era metido mesmo.
A: Eu ainda sou.
B: Não quero tentar recomeçar essa coisa, seja lá que nome tem. Eu só quero que tu aceite de novo minhas compulsões, minha música fudida, minha completa falta de qualquer porquê.
A: E eu lá alguma vez gostei das explicações?
B: Por que a gente não dá certo junto?
A: Deixa de ser babaca. Sempre te disse, se a gente desse certo não ia ter graça.
B: Tu sabe que não vai mais ter outras pessoas. Elas vão existir, vão ir, voltar, é verdade. Mas o quê que elas vão ter com a gente?
A: É o risco que se corre.
B: Isso não te incomoda?
A: Esse calor me incomoda. Cadê o cara do isopor, cacete?
B: Tu não muda mesmo.
A: Eu ainda tenho aquilo tudo escrito, cada palavra, cada ódio, cada discrepância nossa em relação a, quem diria?, nós mesmo. Eu tenho aversão ao teu cheiro na minha pele e eu não aguento mais fingir que não me acostumei.
B: Não sei quem é pior. Mas vai ver um dia a gente vai tá casado, longe no mundão.
A: Ou vai ver a gente se convença que a obviedade das nossas opiniões acabe de vez com alguns sonhos, talvez até loucuras. Tu não entende?
B: Eu entendo até demais. E eu queria não entender, pra de repente conseguir deixar pra lá.
A: Tudo que eu repudio... Eu não funciono assim. Eu não quero um sim, um não, eu não quero um bom dia feliz, estabilidade. Eu quero tudo aquilo lá. Aquilo que ninguém sabe que existe.
B: Infelizmente eu quero isso também. Eu te amo.
A: Finalmente! Água! Tem troco, moço? Quanto tá?
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Não sou ladrão!
por Uriel Gonçalves - 28/06/09
Eu não sou ladrão, não senhor. Não ando por aí de terno, gravata e valise na mão. Nem limpo eu ando. Ladrão anda limpo, porque trabalho, trabalho mesmo suja. Trabalho não tem nada a ver com roupa engomada, creme para as mãos, sapato lustrado. E ladrão é aquele cara que não tem mão calejada, respingo de tinta e suor na testa. Isso tudo eu tenho. Se quiser, tire uma foto minha, leve minha roupa como evidência.
Pode checar aí na gravação que eu não falo direito. Isso lá é coisa de ladrão? Ladrão que é ladrão compra educação. Só não exercita com a gente. Mas fala errado na frente de ladrão pra ver. Ele tira sarro do senhor. Isso se ele enxergar o senhor, porque ladrão é meio míope. Só enxerga números – de cédulas, de contas, de eleitores – só números. Eu nem contar sei. Como é que eu vou ser ladrão?Se o senhor precisar de alguém que confirme que eu sou trabalhador, é só ir lá no bar do Luizão e perguntar para os meus amigos. Porque, o senhor sabe, ladrão não tem amigo. Ladrão só anda com ladrão. É pra caso alguém diga que ali tem ladrão, um apontar o outro. E o pior é que quando gritam “pega ladrão”, é gente como eu que corre.
Eu corro mesmo é porque ladrão adora dizer que a gente é ladrão. Eu pelo menos não sou. E nem é por convicção. É por falta de oportunidade. É o povo que escolhe o ladrão e ninguém me elegeu para isso. É uma pena decepcioná-lo, mas não vai ser o senhor que vai capturar um ladrão. De ladrão escolhido pela gente, só a gente pode cuidar. E se ladrão não liga pra gente, a gente liga menos ainda pra ladrão. Afinal, dá menos trabalho criar um ladrão a cada quatro anos que destruir um por dia. E, no final das contas, não faz mesmo sentido. Pra que tirar a autorização para roubar se foi a gente mesmo que fez o ladrão?
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Nem Paz, só Espinhos e Desamor
por Mariana Melleu - 23/06/09
Ela saiu de casa, jurando que até às seis estava de volta. Levou consigo a bolsa de couro, a roupa do corpo, o cigarro na boca, o tênis de lona. Cruzou a primeira esquina e já se sentia sozinha. A outra, nem tão agoniada, mas nem por isso menos sensível, saía de casa passiva a si mesma, estranha aos demais, sem nada a contemplar. Odiava a vida, as almas perdidas, os fins de tarde e o amor. Um reflexo de tempo, não explicado pela física, nem por ciência divina, podia ter mudado tudo, podia ter dado voz ao mudo, trazido paz ao resto. Estava só, realmente, mas não podia constatar ao certo. Aos seus dias fatigados ignorava, aos sonhos debelados enganava, às lembranças remotas fugia, aos pensamentos desvanecidos escondia-se - nada era tão insensato assim. E corria ligeira, com a sombra pequena e, à santa ingênua, queria lograr. Mas viu a primeira, tão linda e tão clara, parecia uma rosa e se apaixonou. Ah, aquela esquina, tão curta e tão fina, que definiu essa atração. Porém, não queria, não. Podia errar, a outra ferir, fazer Satã sorrir ou simplesmente chorar. Voltado ao reflexo, ainda um mistério, não criaram critério, mas levaram ao fim. Foram só seis segundos que, embora escassos, passaram e nem as estrelas pararam, mas o vento bradou. Beijaram-se forte, como se tudo fosse acabar. A outra, nem tão agoniada, mas nem por isso menos sensível, saía de casa passiva a si mesma, estranha aos demais, sem nada a contemplar. Sentiu um calafrio, um intrincado vazio, perdeu o pavio, queria gritar. Nada havia acontecido, porque aquela, com a bolsa de couro, a roupa do corpo, o cigarro na boca e o tênis de lona, havia cruzado a esquina. E o resto foi pura falsídia, uma ilusão.
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Beleza nunca é demais
por Uriel Gonçalves - 21/06/09
Benhê, tô bonita? – Se você já ouviu, ou mesmo disse isso, sabe que, apesar de ser bastante agradável à visão, a beleza pode fazer muito mal aos ouvidos. E ao cérebro. Não que todo bonito seja estúpido ou todo inteligente seja feio. Não é essa a questão. A questão é que a máxima de que “beleza nunca é demais” tornou-se indiscutível. E, bem, talvez seja a hora de colocar um ponto de interrogação na frente dela.Antes de começar a criticar o estereotipo dos bonitos-acerebrados, pare para pensar: ser bonito não é nada fácil. Nascer bonito sim, é fácil. Mas há muito tempo aquela beleza natural, que não precisa de retoques, deixou de ser suficiente. Os padrões de beleza estão cada vez mais altos e os olhos, mais exigentes. E agradar os olhos alheios é algo que exige muito tempo, paciência, dinheiro e dedicação. Ser o mais bonito então, nem se fala. Ou melhor, fala-se. Fala-se tanto que até Darwin, há mais de um século atrás, falava a respeito.O homem é um animal (pode parecer uma afirmação óbvia, mas ainda faz doer os ouvidos de muita gente). E como animais dentro de um processo de seleção natural, fazemos de tudo para ser os melhores. Seja o melhor atleta, o mais agradável, o mais inteligente, o mais engraçado ou mesmo, o mais estúpido, todos querem ser o “mais”. Por isso, é natural alguns quererem ser os mais bonitos. Alguns, mas não todos. Quando a prioridade de uma sociedade inteira passa a ser uma só, devemos admitir, há algo errado com a nossa espécie.Não se pode ser o mais bonito e o mais inteligente. Não se trata de preconceito, trata-se de uma afirmação prática. Para ser o mais bonito você precisa dedicar muito do seu tempo a isso e , para ser inteligente, também. Posso não ser a melhor em exatas (minha prioridade é outra), mas sei que muito com muito sempre dá demais. E talvez, pelo menos no Brasil, esteja começando a faltar pessoas suficientemente “qualquer coisa que não seja bonita”. Por isso, faça um favor à nossa espécie: de vez em quando, volte àqueles primórdios da nossa sociedade, em que a “beleza”, e não a “beleza extraordinária”, bastava. Desse modo você até poderá ser sincero ao responder aquela perguntinha lá em cima do modo mais agradável – Claro que sim, meu bem.
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O Feitiço Futebolístico
por Viviane Moraes - 19/06/09
Desde criança há duas coisas que sempre tive certeza e que carregava estampadas no meu convívio social: minha paixão pelo Sport Club Internacional e a Comunicação.
Sempre que saía com meu pai ─ também colorado ─ e ele encontrava algum conhecido que se declarava gremista na minha frente, logo o pai exclamava: “Cara, acabou de perder de a amiguinha aqui”. Na época, eu toda tímida, nem discutia. Dava aquele sorrisinho simpático e atacava a concorrência: “O Grêmio é que é muito ruim!”.
O tempo foi passando e no colégio eu tinha que revidar com força. O sorrisinho simpático não era suficiente. Eu falava, falava e falava. A prática levou à perfeição. De tanto falar comecei a adorar a tal da “Comunicação”. Todos me incentivavam. Diziam que eu tinha jeito pra isto. Passei do Ensino Fundamental até o Ensino Médio com a resposta do curso para qual prestaria vestibular na ponta da língua: JORNALISMO.
Até aí, tudo bem. Até que chegou o último ano. A hora da verdade. Sim, continuei na comunicação, mas enveredei para a PUBLICIDADE E PROPAGANDA. Concluí o curso e, pasmem: o título da minha monografia foi “Literatura Infantil na Publicidade”.
E agora me encontro feliz da vida na graduação de LETRAS e, estudando comunicação também, já que esta é uma das funções das diversas linguagens.
As minhas ambições profissionais mudaram. Seguem numa certa linha, porém algumas interferências durante o percurso. Somente uma coisa não mudou: o INTERNACIONAL. Desde criança que a resposta para aquela típica pergunta é a mesma: “Pra que time você torce?”. SPORT CLUB INTERNACIONAL, ora bolas!
É ele que me acompanha nas horas boas e ruins. É por causa dele que me recordo do meu pequeno grupo de amigos da infância que defendia com unhas e dentes o nome do GLORIOSO. Devido ao GIGANTE DA BEIRA-RIO que, mesmo com alguns problemas de relacionamento com meu pai, logo após me tornar uma CAMPEÃ DO MUNDO, mandei um breve e-mail: “Pai, o mundo é nosso!”
A paixão por um clube, não importa o país de origem, o tempo de existência, a divisão em que atua, é o grande feitiço futebolístico. O amor por um time de futebol une pessoas desconhecidas na vibração do gol no estádio; cria amigos, ficantes, namoros e até casamentos na hora da torcida; restabelece laços afetivos, quando tudo parece estar perdido. Já até me disseram que meu humor é regulado de acordo com a situação do INTER nas competições.
Eu amo o FUTEBOL. Eu amo o INTERNACIONAL. Por esses amores já tive paixões por colorados, palmeirenses, gremistas, corinthianos. Trago esta paixão da infância e levarei até o túmulo: “Diante do fim da vida não abro mão/Quero a bandeira do Inter no meu caixão/E não importa o que o padre irá dizer/Por que até lá no céu eu serei Inter”
Te amo, INTER!
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A Minha Vez
por Mariana Melleu - 16/06/09
Achei uma cura tão insuportável pros meus dias insanos. Andaram dizendo que eu sou uma pessoa melhor quando tô contigo e eu passei a acreditar, e a tentar ser melhor, mesmo sabendo que isso não tem nada a ver com meu eu sincero. Não mudei, mas mudei. Me peguei nos momentos de distração não mais cantando sozinha ou falando sozinha, mas, sozinha, lembrando daqueles dias. E isso me deixa nervosa, isso me deixa suando, com raiva. As coisas mais banais, ler, dormir, comprar, falar são agora desculpas pra pensar em nós. É uma inquietação, que às vezes acaba até em arrepios sem propósito, desejos que eu nem sei quais são. Daí, eu vejo o meu redor se relacionar tão bem, eles fazem tudo parecer tão fácil. E não é, não é fácil pra mim, pra gente. Vejo, e vejo, e vejo de novo as fotos, leio os recados, te sinto escrevendo aquelas breguices nas minhas costas. E eu sinto saudades. Depois eu sinto vontade. Eu reluto em dar nome pra coisas que foram criadas para não ter denominação, porque é nisso que eu acredito. E, ironia, até isso tu fez eu querer relevar. Eu falo mal, e falo errado, e bato, e brigo, e acho tudo tão hipócrita, tudo tão sufocante. Não admito que perco a racionalidade pro teu jeito de dizer que me quer na tua vida. Apago a luz. Continuo com aquela mesma antecipação de atos, freneticidade das palavras. Mas agora é a minha vez de decorar meus passos no escuro, cuidando pra que tu não acorde.
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Morrer por viver, Viver pra morrer
por Uriel Gonçalves - 14/06/09
Em 11 de junho de 1963, um homem de saia marchava pela rua. Olhava para a frente com profunda concentração, como fazemos quando nossa mente está ausente. Mas a sua não estava. Completamente consciente de si e transparecendo uma tranqüilidade invejável, o homem, ignorando o tráfego, sentou-se no meio da rua, cruzou as pernas e fechou os olhos. Após alguns minutos de silêncio, o homem agarrou o pequeno galão ao seu lado e se batizou com o conteúdo. Enfim, acionou o aparelhinho em sua mão e colocou fogo em si mesmo. As labaredas atraíram todo um contingente de pessoas, de policiais armados a motoristas curiosos. Mas o que mais surpreendeu a multidão não foi o fogo em si, mas o fato de que, apesar de todo estrago que fazia, consumindo o homem até a morte, ele permaneceu em seu lugar, simplesmente, impassível.
Um dia depois centenas de jornais ocidentais brigavam pela foto do monge vietnamita em chamas, protestando contra o governo de seu país. O objetivo era dar àquele homem a primeira capa e imortalizar seu ato de coragem. Por um dia. Por um dia seus inimigos seriam inimigos do mundo inteiro. Mas apenas por um dia, porque amanhã, depois de desgastado o assunto, estaríamos à caça de outro inimigo, seja ele um seqüestrador de criancinhas, um político italiano ou o governo russo. E assim tem sido há muito tempo por aqui: heróis e vilões descartáveis, uma grande batalha contra sabe-se-lá-quem.
Enquanto esse e outros monges lutam pelo que acham justo, a nós, pobres ocidentais brasileiros, falta contra o que lutar. Não, nós não temos um inimigo em comum. Não saímos por aí ateando fogo em nós mesmos porque não temos coragem. Não fazemos isso porque não temos porquê. Não um porquê de verdade, só um monte de porquês inventados. Nossa luta é contra um assassino de uma vítima desconhecida, contra o seqüestrador de uma criança que jamais encontraremos, contra um governo que achamos mais ou menos. Tudo por aqui é mais ou menos, nada é bom o suficiente pra virar heroísmo. Nada é ruim o suficiente para causar a revolta geral. E a revolta, brasileiros, a revolta é indispensável. Todas as grandes conquistas da humanidade foram feitas na revolta. Mesmo para um monge que viveu na paz, o auge da vida foi na revolta. Afinal, enquanto a paz nos dá um porquê para sobreviver, a revolta nos dá um porquê para morrer. E quem não tem pelo que morrer, não tem pelo que viver.
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Dia do Correio Aéreo Nacional
por Gabriella Rodrigues - 12/06/09
Complicado escrever sobre algo que não se vive. Sim, hoje é 12 de junho, dia do Correio Aéreo Nacional! Tá, sério, todo mundo sabe que é dia dos namorados! Sim, estou solteira, de bem com meu estado civil, mas não tem como não ser contagiada pelo clima cheio de rosas, declarações, coraçõezinhos por todos os lados, etc.
Numa conversa de bar com 3 amigos consegui ver que Dia dos Namorados não afeta todo mundo. Tenho uma amiga que fala: “Namorado é acessório, quando eu quiser eu vou na loja e compro um!”. Sim, solteira convicta, meio traumatizada pelos namoros anteriores, nos quais cansou de ganhar ursinhos e outras inutilidades! Outro amigo me diz: “Dia dos Namorados não serve pra nada, nem pra ser feriado”. No mínimo de se pensar essa possibilidade de feriado, né?!
O que eu penso? Dia dos Namorados é uma data que me afeta um pouco, me encanta esse lance de amor. Banco a forte, a sem medo de ser cruel às vezes, mas no fundo sou uma apaixonada inveterada! Não sou dessas que ficam correndo atrás de amores loucos, que vivem em função de arrumar um namorado, creio que quando for pra acontecer vai acontecer.Enquanto não acho o certo, vou procurar algum errado pra passar esse dia tão romântico. Se não encontrar? Paciência, potes de sorvetes, chocolates, vinhos e comédias românticas também são ótimas companhias!
Feliz Dia dos Namorados pros casais e para os solteiros só deixo a dica: relax: dia 12 de junho é dia dos namorados e TODOS os outros são nossos!
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Filmes Selecionados - Festival de Cinema de Gramado 2009
Longas Nacionais:
CANÇÃO DE BAAL, de Helea Ignez
CILDO, de Carlos Moura
CORPOS CELESTES, de Marcos Jorge Fernando Severo
CORUMBIARA, de Vicent Carelli
EM TEU NOME, de Paulo Nascimento
QUASE UM TANTO, de Sérgio Silva
Longas Estrangeiros:
GIGANTE, de Adrián Binez (Uruguai)
LA TETA ASUSTADA, de Claudia Llosa (Peru)
LLUVIA, de Paula Hernandez (Argentina)
LA PROXIMA ESTACIÓN, de Fernando Solanas (Argentina)
NOCHEBUENA, de Maria Camila Loboguerro (Colômbia)
Curtas Nacionais:
O TROCO, de André Rolim
JOSUÉ E O PÉ DE MACAXEIRA, de Diogo Veigas
O TEU SORRISO, de Pedro Freire
TERESA, de Paula Szutan e Renata Terra
PRA INGLÊS VER, de Vitor Grenado e Robson Dias
EM TERRA DE CEGO, de João Boltshauser
DOCE AMARGO, de Rafael Primont
ERNESTO NO PAÍS DO FUTEBOL, de André Queiroz e Thaís Bologna
NÃ ME DEIXE EM CASA, de Daniel Aragão
A INVASÃO DO ALEGRETE, de Diego Müller
OLHOS DE RESSACA, de Petra Costa
QUIROPTEROFOBIA, de Fernando Mantelli
Mostra Gaúcha:
ENCICLOPÉDIA, de Bruno Gularte Barreto
LIVROS NO QUINTAL, de Vinicius Cruxem
MAPA-MÚNDI, de Pedro Zummermann
DE VOLTA AO QUARTO 666, de Gustavo Spolidoro
QUIROPTEROFOBIA, de Fernando Mantelli
JOGO DO OSSO, de Henrique de Freitas Lima
SEGURA NA MÃO DE DEUS, de Elisa Simczak Treuherz e William Linhaes
Fora de Competição: (Panorama de Cinema)
El viaje de Avelino, de Francis Estrada (Argentina)
EM quadro, de Luiz Antônio Pilar (Brasil)
Garapa, de José Padilla (Brasil)
Inalmama, sagrada e profana, de Eduardo López Zavala (Bolívia / Venezuela)
Morro do céu, de Gustavo Spolidoro (Brasil)
Ruas da amargura, de Ruy Simões (Portugal)
Tudo isto me parece um sonho, de Geraldo Sarno (Brasil / Venezuela)
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"Eu fui a Woodstock" - Roc Ahrensdorf
Matéria e entrevista: Carolina Petry Matzenbacher
"Eu tinha 16 anos quando fui a Woodstock. Vou começar a contar minha história sobre como eu cheguei lá. Eu e um amigo fomos para Woodstock no seu Volkswagem. Preparamos a comida, sacos de dormir etc. Nós percorremos não mais do que algumas milhas pela I-95 quando batemos no pára-choques de um carro na nossa frente perto de uma construção. Não aconteceu nada, mas esmagamos a frente de nosso carro.
Carro que ainda estava um tanto “dirigível”, portanto estávamos confusos sobre como lidar com o incidente. Deveríamos ir ao show e dizer que a batida aconteceu na volta ou devíamos ligar para os seus pais e ver o que eles diriam? Bem, no caso de outras pessoas parecerem poder ligar, decidimos ligar para seus pais. E é claro que eles disseram para voltarmos para casa.
Eu estava em casa pensando sobre tudo isso quando minha mãe disse “Vá! Eu não vou ter paz em casa se você ficar aqui!”. Então eu aprontei meu Corvair, peguei toda comida e parti na sexta-feira sozinho.
Fiquei parado em um engarrafamento por horas até que finalmente me disseram para estacionar em um gramado. Fui até um bar e comprei uma coca-cola quando um cara me perguntou “você tem um ingresso?” e eu respondi “não” . Fiquei meio assustado de ele dizer que eu não conseguiria entrar. Mas ele olhou para mim e disse:“você não precisa de ingressos!”.
Eu tive que estacionar a quase uma milha de distância do show. Peguei o que poderia carregar e caminhei até o local. Encontrei um lugar para erguer minha cabana no topo do campo. Peguei meu saco de dormir e voltei para o carro para pegar comida e qualquer coisa que eu pudesse precisar. Eu mesmo fiz uma pequena fogueira na frente da minha barraca. Eu podia ouvir muitas coisas dali, portanto eu não precisava realmente atravessar a multidão, a não ser que eu quisesse ver as bandas.
O local era cheio de trailers com nomes do tipo “Groovy Way” ou “Far Out Path”. A cada interseção havia pessoas vendendo todo o tipo de drogas! Que cena!
Depois de um tempo, algumas pessoas me perguntaram se eu não podia dividir minha fogueira. Eu disse “claro”. Então, eles acamparam ali. Quando começou a chover, eu me enfiei em meu saco de dormir por um tempo. Quando eu acordei, minha pequena fogueira tinha se tornado uma larga labareda com muitas pessoas por perto secando suas roupas e cobertores. Era impressionante como as pessoas se viraram juntas.
Eu fiquei meio chapado pela semana inteira, então eu fiquei por perto de minha barraca. Acordei em uma manhã de segunda-feira pelas dez horas para ouvir Jimi Hendrix tocar “Star Spangled Banner”. Que maneira de acordar! Pelo o que tinha sido lá, parecia vazio. Depois de Hendrix terminar, eu fiz minhas malas e voltei para casa. O trânsito não estava tão mal. Foi interessante ver todas as pessoas a procura de amigos ao longo do caminho ou seus carros".
Tudo que se fala sobre drogas em Woodstock é real ou as pessoas foram lá mais pela música?
"Para mim pareceu ser pela música. Óbvio que havia muitas drogas lá, mas isso não foi o motivo que levou as pessoas a irem ao show. Aquilo foi também feito para ser O lugar, então várias pessoas que não comumente iam a concertos como aquele foram para Estar Lá".
Você mudaria alguma coisa sobre a maneira que você agiu lá e como?
"Primeiro, eu teria tirado mais fotos. Eu levei minha câmera, mas só tirei quatro fotos. Elas eram de pessoas que acampavam muito longe da ação. Era incrível como quão longe tudo se espalhava. Eu queria ter tirado mais fotos das coisas que aconteciam lá e de meu local de acampamento".
Qual foi a cena mais bizarra que você viu lá?
"A cena mais bizarra foi ver como as coisas estavam segunda-feira. A maioria das pessoas tinha ido embora, deixando muito lixo, cobertores, sacos de dormir e outras coisas espalhadas pelo chão coberto de lama".
E qual foi a coisa mais impressionante?
"O mais impressionante foi o modo como as pessoas estavam espalhadas. Era possível ver as pessoas muito longe do lugar onde você estava".
Você acha que tudo que é visto nos vídeos e em fotos retrata exatamente o que aconteceu?
"Claro, acho que não há nada exagerado".
Como você se sente por ter feito parte do mais famoso festival de música da história? Isso mudou alguma coisa na sua vida?
"Tenho orgulho de ter feito parte. Não sei se mudou algo em minha vida. Acredito que foi uma culminação de tudo o que aconteceu nos anos 1960. O festival mostrou ao mundo que 500 mil pessoas podem conviver juntas, a maioria usando algum tipo de droga, mas mesmo assim pacificamente. Muitas pessoas acharam que o movimento hippie era o fim do mundo, mas Woodstock mostrou que elas estavam enganadas".
O que você viu e sentiu em Woodstock que não consegue mais ver e sentir nessa nova geração?
"Havia muita coisa acontecendo, tudo novo e diferente. As coisas são menos radicais hoje em dia. Havia uma irreverência no ar. Mas você não vê mais marcha de paz. As crianças são muito apáticas. Se eles tentassem recriar Woodstock hoje, possivelmente ele seria um festival de patrocinadores".
As quatro fotos tiradas por Roc Ahrensdorf:

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Quando os ricos se tornam os marginais
por Mariana Melleu - 09/06/09
Sabem aquelas citações de célebres, escritores, atores, diretores de cinema, etc. etc. etc. que são líricas e impactantes e que pseudo-fazem a gente parar para refletir sobre algum existencialismo? Passei a me preocupar com o fato de, constantemente, ouvir e ler algumas delas criticando quem tem dinheiro. Sabe-se que é o papel da sociedade brasileira intervir negativa e positivamente na vida de todo cidadão parte dela, mas desde quando se estabilizar ou, quem sabe, ascender economicamente virou algo tão terrível? Estudo, preparo, esforço e trabalho já não são mais os modelos a serem seguidos. Até andam dizendo que, cada vez mais, a sorte é um fator extremamente importante na vida. Vejam bem: a sorte! Santa ignorância! Honestamente: não entendo o porquê de livros, suor e mérito terem tornado-se alvo de pânico e de preconceito, nem o porquê do culto ao exemplo ter se modificado para culto ao pior exemplo. Estaria sendo simplista se encaminhasse a culpa por isso apenas aos governos e a essa nossa politicalha em geral; de fato acredito que a situação envolva muitos outros fatores. Infelizmente, chego a conclusão de que não há mais espaço para um indivíduo com dinheiro e meia dúzia de idéias embaixo do braço ser levado a sério. Possuir ideologias e opiniões políticas tendo renda superior ao salário mínimo? Nem pensar! Exemplo prático? Tenho, sim. Qual foi a última vez que se viu um best-seller brasileiro escrito por gente não sofrida? Alguém que nunca tenha sido vítima de abusos na infância, alguém que nunca tenha sido obrigado a roubar na rua para poder comer, alguém cuja família possui toda a estrutura física e afetiva em ordem? Não estou dizendo que tais relatos não sejam verdadeiros ou que não sejam merecedores de repercussão pública, óbvio e definitivamente que são. Mas por que, então, também o trabalhador, o empresário, o administrador não podem ser? O que eles fizeram de errado para acabar marginalizados, no mais literal sentido de terem ficado à margem da opinião notória? E a resposta, se preparem, é um horror: eles estudaram, eles trabalharam, eles - um absurdo – têm dinheiro!
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Eu fui a Woodstock - Jay Goyette
Jay Goyette
Quantos anos você tinha quando foi a Woodstock?
"Deixe-me ver... Em agosto de 1969 eu deveria ter uns 20 anos".
Woodstock era só orgias e drogas ou você acha que a maioria das pessoas foram pela música?
“Oh, eu diria que a maioria das pessoas, definitivamente, foi pela música. Tinha uma lista de artistas excelente, assim como tenho certeza de que você pode imaginar. Eu não participei de orgias e das drogas, e nem avistei muitos nudistas - somente alguns. Mas tinha muita maconha, é claro”
Qual foi a coisa mais impressionante que você viu lá?
"Eu acho que a multidão de pessoas e a sensação de bem estar que senti. Depois do último e-mail que eu te mandei, eu falei com o meu amigo Howie, que era um colega de faculdade, e perguntei pra ele como foi possível a gente ter se encontrado lá. Ele disse que nós simplesmente nos peichamos, o que eu achei realmente “cósmico”, quando eu pensei sobre isso. Ah, e a música, claro. Algumas delas nem estiveram no filme, Creedance estava lá, Canned Heat, Janis Joplin, The Who, Sly and the Family Stone… Tenho certeza de que você pesquisou sobre a lista de artistas".
Você acha que tudo o que se vê nos filmes e nas fotos é exatamente o que aconteceu?
"Eu acho que o que eu vi nos vídeos e nas fotos condiz com a realidade. O filme retratou bem a história – uma celebração espontânea de uma geração, e a maior festa que alguém poderia ter ido".
Por que você acha que Woodstock ainda é lembrado na história ao contrário dos outros grandes festivais de música?
"Pelo fato de que foi o primeiro. Ele aconteceu em contexto da guerra do Vietnam e de movimentos protestantes, portanto foi inteiramente apaziguador. Ninguém esperava, naquela época, que o festival teria a repercussão que tem hoje. Parecia como uma geração inteira de “Baby Boomers” se descobrindo e compartilhando valores".
Você mudaria alguma coisa na maneira que você agiu em Woodstock?
"Eu não mudaria nada. Mas eu desejava não ter pegado no sono durante o show do The Who".
Como você se sente por ter feito parte do mais famoso festival de música da história? Você acha que ele mudou a sua vida?
"Eu sou grato por ter feito parte disso tudo. Woodstock mudou a minha vida de uma maneira misteriosa, como talvez tenha me feito uma pessoa menos cínica a respeito da capacidade que o ser humano tem de convivem em paz uns com os outros".
Quais foram as coisas que você viu e sentiu em Woodstock que não consegue mais ver e sentir, atualmente, nessa nova geração?
"Eu acho que nós temos muito em comum com a geração de hoje em dia, na realidade. Vocês, jovens, me deixam pasmos. Vocês têm até maior compromisso em fazer a diferença nesse mundo do que nós tínhamos – consciência com o meio-ambiente, conhecimentos internacionais.E eu tenho muito respeito nos resultados. Como uma geração, a nossa oposição à guerra do Vietnam foi real. Eles estavam nos inserindo em uma guerra que nós considerávamos imoral. De fato, eles deram uma resposta completamente radical e violenta.
E ninguém nunca vai me convencer que Kent State não teve um assassinato planejado por protestantes da paz".
Entrevista: Carolina Petry Matzenbacher
Tradução: Carolina Petry Matzenbacher e Pedro Faustini
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