Por Vanessa Nicola e Labrea - 15/06/2009
O psiquiatra Félix Kessler, vice-diretor do Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas da UFRGS e membro da Abead - Associação Brasileira de Estudos sobre Álcool e Drogas, deu a seguinte declaração (que me obrigou a postar sobre o assunto): "No Hospital São Pedro (POA), a cada dez pacientes que procuram a emergência psiquiátrica do hospital, cerca de sete são usuários de Crack".
Até o final dos anos 90, mal eram citados os usuários de Crack: eles eram muito pouco freqüentes na procura por serviços ambulatoriais ligados às drogas ilícitas. Atualmente, sua presença é maçante: chega a formar 80% da demanda nessas áreas hospitalares. E o número se repete: foi de 80% o crescimento da porcentagem de usuários da droga no RS - somente em 2009.
São 55.000 pessoas viciadas em Crack só no nosso estado
55.000 x 5 pedras por dia = 250.000 pedras consumidas por dia no RS
É comum e assustador nos últimos meses: nós assistimos na televisão, ouvimos os comentários, lemos os jornais e revistas, ficamos sabendo de histórias etc, e o que dizemos é: “que horror o que vem acontecendo” ou “chocante”. Ok, chocante. Mas pior é esquecer-se da raiz ao ver o nascer dos frutos. Ninguém se pergunta que tipo de epidemia é essa que se espalha pelo Rio Grande do Sul e pelo Brasil sem nenhuma explicação plausível por parte de governos e governantes até agora? Sim, porque uma epidemia social, criada não por um vírus mas por um comportamento reprimível, exige no mínimo uma explicação. A árvore parece podre, mas ninguém lembra do que se esconde debaixo da terra. Em que ponto a sociedade inteira é obrigada a despertar para o elo quebrado há tanto tempo em sua corrente estrutural? O que quero dizer é: é preciso que exponha-se números assustadores e vidas arrancadas para que as pessoas acordem para a falta de nexo da política governamental brasileira? Onde está o dinheiro aplicável em educação e formação de cidadãos conscientes, em apreensão de armas e substâncias ilícitas que suportam e são suportadas pelo tráfico? Onde está? E existe resposta. O pior é isso, existe: nós sabemos onde está o dinheiro.
Enfim, que gaste-se um pouco na ala psiquiátrica dos hospitais agora.
E já que, neste caso de prevenção já extraviada, é preciso mesmo remediar, é ótima a proposta do Grupo RBS, que “lança bandeira de guerra contra um inimigo terrível, que escraviza pessoas, destrói famílias, degrada a juventude, estimula o crime e provoca mortes”. Eu achei maravilhosa a campanha, e todos devem participar. Porém não se esqueçam de olhar um pouco além, para onde talvez esteja a nos encarar um inimigo um tanto anterior ao Crack. Um inimigo um pouco mais amplo, digamos assim.
Todas as informações da campanha no site:
http://zerohora.clicrbs.com.br/especial/rs/cracknempensar/19,0,2525904,Grupo-RBS-lanca-campanha-contra-o-crack.html
Até o final dos anos 90, mal eram citados os usuários de Crack: eles eram muito pouco freqüentes na procura por serviços ambulatoriais ligados às drogas ilícitas. Atualmente, sua presença é maçante: chega a formar 80% da demanda nessas áreas hospitalares. E o número se repete: foi de 80% o crescimento da porcentagem de usuários da droga no RS - somente em 2009.
São 55.000 pessoas viciadas em Crack só no nosso estado
55.000 x 5 pedras por dia = 250.000 pedras consumidas por dia no RS
É comum e assustador nos últimos meses: nós assistimos na televisão, ouvimos os comentários, lemos os jornais e revistas, ficamos sabendo de histórias etc, e o que dizemos é: “que horror o que vem acontecendo” ou “chocante”. Ok, chocante. Mas pior é esquecer-se da raiz ao ver o nascer dos frutos. Ninguém se pergunta que tipo de epidemia é essa que se espalha pelo Rio Grande do Sul e pelo Brasil sem nenhuma explicação plausível por parte de governos e governantes até agora? Sim, porque uma epidemia social, criada não por um vírus mas por um comportamento reprimível, exige no mínimo uma explicação. A árvore parece podre, mas ninguém lembra do que se esconde debaixo da terra. Em que ponto a sociedade inteira é obrigada a despertar para o elo quebrado há tanto tempo em sua corrente estrutural? O que quero dizer é: é preciso que exponha-se números assustadores e vidas arrancadas para que as pessoas acordem para a falta de nexo da política governamental brasileira? Onde está o dinheiro aplicável em educação e formação de cidadãos conscientes, em apreensão de armas e substâncias ilícitas que suportam e são suportadas pelo tráfico? Onde está? E existe resposta. O pior é isso, existe: nós sabemos onde está o dinheiro.
Enfim, que gaste-se um pouco na ala psiquiátrica dos hospitais agora.
E já que, neste caso de prevenção já extraviada, é preciso mesmo remediar, é ótima a proposta do Grupo RBS, que “lança bandeira de guerra contra um inimigo terrível, que escraviza pessoas, destrói famílias, degrada a juventude, estimula o crime e provoca mortes”. Eu achei maravilhosa a campanha, e todos devem participar. Porém não se esqueçam de olhar um pouco além, para onde talvez esteja a nos encarar um inimigo um tanto anterior ao Crack. Um inimigo um pouco mais amplo, digamos assim.
Todas as informações da campanha no site:
http://zerohora.clicrbs.com.br/especial/rs/cracknempensar/19,0,2525904,Grupo-RBS-lanca-campanha-contra-o-crack.html






5 Responses to "CRACK - Pensar"
Não sei como eu vim parar em seu blog, mas depois de ler sua postagem, resolvi me manifestar como cuidador de pessoas em sofrimento mental... trago uma serie de questionamentos bem ríspidos com intuito de aprofundar mais ainda...
E além de toda essa campanha da RBS?? O que se sustenta?? A anti-reforma?? A psiquiatria explodindo de felicidade e reinando pelo poder.
Não sei se já ouviu falar sobre Reforma Psiquiátrica, sobre tratamento fora de manicômios que maltratam e torturam as pessoas internadas, excluídas, que tanto necessitam de cuidado!!
A epidemia social carece de mais serviços que substituam essas práticas hospitalocentricas e enlouquecedoras!! Mas acontece que tudo foi deixado para trás então... o retorno!!
Os Governantes... a questão da saúde mental, debates sobre os direitos humanos, cidadania e respeito na integralidade de tratamento para essas pessoas, lindo é que os profissionais de saúde mental a tempos falam, reforma se não... deforma!!! Quantos CAPS Álcool e drogas existe em Porto Alegre??? A quanto tempo vem se batalhando por isso??? tudo varia... é uma questão de gestão e comprometimento com a causa da saúde mental.
Porque agora com toda essa reforma e serviços substitutivos a institucionalização toma conta novamente... será que os olhos dos "normais" suportam estes sujeitos inclusos na sociedade ou os rejeitam??
Vá até o Hospital Psiquiátrico São Pedro e faça uma familiarização... a realidade, da dor e abandono...
Mais Leitos é o que vocês ouvirão da mídia.
É linda a campanha do Crack, mas quem está na rua não lê jornal e nem vê TV.
A população do estado esta abandonada pelos governantes... nunca foi critério de quem governa a classe média/ alta...
Quem governa o povo marginal?? Quem olha para eles?? Não precisa ir longe nos bairros mais carentes você verá as alternativas criadas pelas próprias associações.... saneamento básico entre outros!! Acesso a todos, comprometimento!!
Obrigada por trazer à tona mais essa realidade excludente de portadores de patologias mentais. Mas espero que tu tenhas percebido que, em momento algum, meu texto envereda para este lado de teor crítico a essa parcela da população, e que não foi meu objetivo denegrir ainda mais a imagem já denegrida de quem não é considerado - erroneamente - "normal" pelo restante da sociedade. Concordo em parte com as tuas ideias e sim, já visitei o hospital psiquiatrico são pedro e tenho plena noção do significado de conceitos como reforma psiquiátria e do movimento que vem se expandindo da europa para cá gradativamente nos últimos anos. esse assunto é do meu interesse, por isso realmente sei do que tu falas. mas apesar de ter plena consciencia de todas estas questoes, nao foram elas que eu quis abordar ao escrever esse texto. gostei do teu comentário porque posso ver verdade nele. mas tenho que te dizer que fizeste uma catarse onde não era necessário.
Não era necessario. (Vanessa Nicola e Labrea)
Achei válido o comentário do anônimo, mas realmente o texto da Vanessa não desválida e nem faz mensão sobre a população "excluída da sociedade", como disse o anônimo. Também não intendi pq o anônimo se colocou como tal e não publicou o comentário com o nome verdadeiro
Achei bem bacana tua abrodagem. As pessoas geralmente querem tapar o sol com a peneira e não veem que há muita coisa antes da droga de fato. Eu sou daquelas que defende com unhas e dentes a questão da educação. Não me refiro à alta cultura, ao ensino superior. Falo sim da educação básica, de pobres alunos que passam para as séries seguintes sem mal saber escrever seu próprio nome. Professores que fazem de conta que ensim e alunos que fazem de conta que aprendem. E aí, o que resta para as infelizes criaturas sem o mínino de instrução? Vão roubar, se prostituir, se "ocupar" com algo que o deixe mais "alegrinho". É uma bola de neve. Quando a cosia realmente começa a feder, quando se torna insustentável, as vítimas não recebem o tratamento adequado. Simplesmente não tem a aquem recorrer. São maltratados. Uma amostra disso está no filme "Bicho de Sete Cabeças". Centros psiquiátricos que são pior que cadeias: só servem para acabar ainda mais com a pouca dignidade que o ser humano possui.
Gurias, o blog de vcs é sensacional. Tema do post show!
Beijos
O crack, com seu poder devastador, definitivamente invadiu a classe média. Minha história é bem parecida. Sou universitário, classe média alta e tenho 24 anos. Fui viciado em crack durante os últimos 3 anos e hoje estou ha 42 dias sem essa maldita droga. Nem preciso dizer que tive que chegar ao fundo do posso para perceber no que havia me metido. Antes tarde do que nunca! O que posso dizer é que a recuperação é muito difícil, mesmo com todo o apoio necessário. A droga é realmente poderosa. Busquei em mim uma motivação interior, a mais forte possível, para que agarrado nisso eu pudesse superar. Tem funcionado bem e hoje me sinto indescritivelmente melhor. Mas não foi nem um pouco fácil, só que valeu a pena. Hoje tenho um blog, que fiz como desabafo, e que tem me motivado muito a continuar lutando. Vou tomar a liberdade de deixar aqui o endereço, pra que possam conhecer a minha história e confirmar que o crack está muito mais perto do que pensamos
http://cracknuncamais.blogspot.com
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